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Porra!

por umavidasemcouves, em 25.04.15

Se há coisa que me deixa fodido (assim, à bruta) é ver aberturas de jornal com posts que os jogadores escrevem nas redes sociais. Um simples frase banal, do tipo «Vamos equipa», transforma-se numa abertura de página. Bem sei que os tempos não estão fáceis para sacar notícias, mas porra, somos assim tão preguiçosos? Depois admiramo-nos que ninguém compra jornais. Pudera!

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O porco

por umavidasemcouves, em 14.04.15

Quem me conhece sempre me conheceu gordo. Eu sempre me conheci gordo. Já nasci rechonchudo, depressa passei a pesar mais do que devia. Sempre adorei desporto, mas nunca o pratiquei. A minha vida sempre foi sedentária, no refúgio do meu quarto, o único sítio onde ninguém me fazia mal, onde ninguém gozava comigo por não ser como as outras pessoas. Porque eu nunca me senti como as outras pessoas. Na cultura ocidental, uma pessoa gorda ou obesa é tratada como se fosse um deficiente.

 

O quotidiano é feito de desafios. Entramos numa Zara e as calças maiores da loja não nos passam nas coxas, por exemplo. Quando eu era miúdo, as minhas calças eram feitas por encomenda, acreditem ou não. Não nos sentimos bonitos, ninguém nos faz sentir bonitos (sobretudo as raparigas) e só queremos estar onde não nos fazem mal. Eu ia logo para o meu quarto. Conforto? Só na comida. Quanto mais infelizes, mais comíamos, mais engordávamos. Era um ciclo vicioso.

 

A altura em que o meu peso mais me condicionou foi no ensino secundário, sobretudo entre o 7.º e o 10.º ano. Talvez por ser essa a altura em que começamos a olhar para as raparigas. O periodo mais infeliz foi quando tive negativa a Educação Física por não conseguir fazer cambalhotas. O peso não ajudava, magoava-me o pescoço e fez-me ter medo. Medo que ainda hoje me condiciona. Naquelas tardes, ia para casa a chorar, sem que ninguém visse. Chegava a casa antes dos meus pais e fechava-me no quarto. Nunca ninguém deu por nada.

 

Demorei bastante tempo a aceitar a minha morfologia. E necessitei de apoio psicológico. A partir daí, foi algo que desapareceu e já nem a falta de calças na Zara me entristece. Até hoje. Hoje, sem perceber muito bem porquê, quase que me acusaram de falta de higiene no sítio onde faço desporto, porque a minha roupa cheira mal. E perguntaram-se a lavo. Lavo todas as semanas. De seguida, a pessoa que fez esses comentários (uma que mais respeito, por sinal) fez-me entender que, por ser gordo, devo ter ainda mais cuidados com a higiene, porque suo mais. Ou seja, os magrinhos com quem treino devem ser todos frescos e airosos, a cheirarem a rosas. Eu, o gordo, sou o porco.

 

Hoje tenho 32 anos, dois cursos superiores e uma vida plena de responsabilidade. Mas voltei a sentir-me o miúdo triste porque era o pior aluno a Educação Física. A partir de agora, vou passar a treinar com água de colónia, desodorizante e gel no cabelo. Vou passar a lavar a roupa todos os dias. Puta que vos pariu, o miúdo gordo vai-vos comer a todos desta vez.

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